segunda-feira, 2 de maio de 2011

O AMANHECER DAS PRINCESAS NA CACHOEIRA DO JAGUAR (5)





CAPITULO V

Salve Deus!
Meus filhos Jaguares:

Explica-se a diferença entre a velha estrada e o novo caminho.
A velha estrada é cheia de medo, de temor a Deus. A velha estrada
foi palmilhada por milhares de pessoas, milhares de teorias sempre escritas
e nunca praticadas. O novo caminho entretanto foi traçado pelo suor, pela
própria energia de quem o traçou e vive a emitir com tanto amor.
Vamos sentir o caminho do Amanhecer, sem supertições e sem as
teorias dos pensadores, pela vivência na pratica, na execução desta Doutrina
e seus fenômenos sensoriais.
Vamos senti-lo no respeito á dor alheia, no carinho aos humildes,
no afeto das ninfas, no progresso e na compreensão de nossa família.
Este é o carinho traçado para o homem na doutrina do amanhecer.
Quem diria que naquela Era distante os Enoques levassem tão alto
esta filosofia, esta corrente.
Sim, Pai João, o mais velho, era quem observava com mais precisão
o desenrolar das vidas nos Carmas. Suas preocupações aumentavam
enquanto Pai Zé Pedro filosofava de vez em quando.
Os dias passavam sem qualquer anormalidade, isto é, sempre
acontecendo fenômenos que ali já eram corriqueiros. Porém só Deus sabia
como e onde chegariam. Havia dias alegres e outros menos alegres, porém
sempre em harmonia.
Até que as forças foram se materializando e tudo começasse a ser
mais verdadeiro, mais preciso.
Pai João se enebriava com todos aqueles fenômenos e estava sempre
a espreita dos mínimos acontecimentos. Os momentos de descanso era
cochilando em baixo de uma pequena arvore.
O pequeno arraial estava tranqüilo quando Pai João em um dos
cochilos, viu um finíssimo fio magnético entrando numa das cabanas, ao
mesmo tempo que ouviu o grito desesperado de alguém que fora atingido.
Era um fenômeno mediúnico,puramente espiritual. O grito era da
jovem Iracema que rolava com uma dor na espinha, como se tivesse levado
uma pancada.
Pai João então correu e fez uma “elevação” tirando-lhe a dor.
Ele então começou a pensar que nada havia enxergado. Tinha certeza
de ter visto aquele fio saindo da cabana do feitor.
Chamou então Pai Zé Pedro e contou-lhe o que vira e os dois
começaram a ter medo da situação.
Nisto Jurema, manisfestada por um caboclo começou a dize:
- “Meus filhos! Tomem cuidado, este feitor é um instrumento
feliz de evolução. O pobre infeliz vive ainda pelas mãos caridosas de Sinhá
Sabina. O fenômeno foi visto por vosmissê João, para que tome cuidado!”.
- Como!? (perguntou Pai João).
- Ele vai entrando em transe (respondeu o caboclo) e sua alma
ruim,odiosa,pega a quem ele mais ama ou odeia.
- Salve Deus! (disseram todos de uma vez.)
- E eu pensava que somente os desencarnados atuavam...
- Sim! (continuou o caboclo) vocês estão em uma jornada para
desenvolvimento, até que passe todo o Carma da escravidão.
- O homem será feliz quando tiver a libertação? (perguntou Pai Zé Pedro).
- Não! (continuou o caboclo) o homem jamais se libertará.
E dizendo isso deixou Jurema e se foi.
Todos ficaram sem entender nada. Jurema porém entendeu e saiu
correndo dali para a cabana do feitor, decidida a falar com ele e dizendo
que iria mata-lo, quando Pai João interferiu dizendo:
- Jurema, a concepção de morte resulta de um entendimento
completamente errado da vida, porquê na verdade ela jamais existiu. O
Espírito não morre e então o feitor nos atentará mil vezes mais. Matandoo
ele ficará mais leve, mais sutil.
- Todos que se prendem pelo pensamento e se enchem de ódio,
ao se verem desencarnados no astral inferior, é evidente que voltam, sendo
mais comuns as suas furiosas crises.
- Vamos Jurema, vamos tentar doutrina-lo antes que morra e se
torne invisível aos nossos olhos.
Chegaram na cabana do feitor. Ele estava esticado numa cama de
vara e capim. Sabina veio sorrindo ao encontro deles. O feitor começou a
espraguejar e Pai João a lhe fazer doutrina, porém com medo de Jurema
que o observava seriamente, com seus olhos verdes e amendoados.
Sem perceber, disse então Pai João: - Pobre imperador! Viestes
com tão nobre missão e no entanto eis o que restou! Pensa Eufrásio, no
que estou te dizendo. Vou levar Jurema e voltarei.
O dia á estava terminando quando Pai Zé Pedro e Pai João se
encontraram de novo e se entenderam. Pai Zé Pedro deslumbrado ficava
repetindo: - A irradiação dos encarnados se desprende do corpo e manifesta
com a mesma leveza do espírito dos mortos...
Nisto se ouviu um grito e em seguida gargalhadas; Pai Zacarias
caíra na cachoeira e estava todo molhado, porém nada havia lhe acontecido
senão o susto. Coisas dessa espécie aconteciam sempre.
Sim, mas essa alegria durou pouco. Chegou o feitor da fazenda
onde Jurema vivia.
Todos se assustaram com o visitante.
Ele chegou arrogante e á ia pegando Juremá quando Tomaz gritou:
- Larga, porco imundo, aqui é diferente! – Nem tanto (gritou o feitor)
porque você vai morrer!
Dizendo assim esporeou o cavalo e marchou para Tomaz. Como
um relâmpago passou por cima dele com o cavalo esmagando o seu
estômago. Quando Pai Zé Pedro e Pai João chegaram era tarde de mais.
Tomaz já estava morto!
Todos gritaram fazendo um ambiente de terror naquele lugar.
O feitor foi fugindo desapercebido levando Juremá.
Aquela dor era grande demais e ninguém se lembrou do feitor
assassino e nem de Juremá.
A morte de Tomaz trouxe tanta tristeza que mudou a sintonia do
lugar. Os nagôs não cantaram mais e nas fogueiras riam raras vezes. A
harmonia porém continuava.
Começaram então os projetos para irem buscar Juremá.
Tomaz fora quase criado por Pai Zé Pedro.
Dois nagôs que muito amavam Pai Zé Pedro resolveram buscar
Juremá. Calados, sem que ninguém soubesse, puseram uma “matula” na
mochila e se foram sem que ninguém soubesse.
Jurema porém os ouviu na sua vidência.
Pai João por sua vez sentiu tudo que estava se passando.
Todos porém se fizeram de desentendidos e ninguém impediu os
dois Nagôs.
Jurema não olhava para Pai João e nem Pai Zé Pedro, pois viviam
ainda o espírito de vingança pelo seu querido Tomaz.
E realmente Joaquim e Cassiano chegaram com Juremá.
Novamente o rebouliço.
Juremá não falava, perdera a voz.
Todos queriam saber o que houvera porém nada diziam e ninguém
tinha coragem de perguntar. Permaneciam em volta da fogueira e só se
ouvia o murmúrio da Cachoeira. Ninguém tinha mesmo coragem de quebrar
aquele silêncio.
De repente Jurema deu uma risada, Janaina foi para perto dela e
as duas se abraçaram, Jurema porém mantendo uma atitude que não era
dela disse: - Salve Deus! (e chamando Joaquim e Cassiano disse) – Porque
fizera isso? Mataram o feitor e seu Sinhozinho! Isto não é de um filho de
Deus e receber o feitor como teu filho. E tu Cassiano, terás o teu Sinhozinho
também como filho!
A estas alturas Cassiano e Joaquim já sabiam o que Jurema queria
dizer.
- Me perdoe, bom espírito (disse Joaquim) porém aquele malvado
matou nosso Tomaz em sua covardia!
Cassiano por sua vez perguntou ao espírito incorporado em Jurema
se eles poderiam continuar vivendo ali.
- Sim! (disse o espírito) Deus não tem pressa. Cada um daqui
assumirá a sua sentença ou sua libertação.
Juremá enchia-se de cuidados por Jurema.
Tão logo terminou a incorporação cada em voltou ao seu estado
d’alma. Uns foram dormir e outros ficaram ali na fogueira.
Nisso ouviram gritos alucinantes!
Meu Deus! Novamente o fio magnético. Novamente Iracema fora
atingida pelo feitor Eufrásio.
Tudo se repetiu com as mesmas correrias, até que Pai João liquidou
novamente o assunto com nova elevação. Desta vez porém com muito
trabalho.
Mais dias decorreram e se notou que Iracema ficava cada dia mais
pálida, com ar doente. A partir daí tudo foi mal a pior.
Certo dia fizeram um vidência para saber o que deveriam fazer
com a pobrezinha da Jurema. Dela participou Vovó Cambina, que viera da
Bahia para tirar o quebranto dos filhos da Sinhá. E na sessão daquela noite
decidiu seguir os seus irmãos naquela jornada.
Vovó Cambina da Bahia “rezou” Iracema e esta com seu “passe
magnético” começou a melhorar. A partir daí, na proporção em que ia se
fortalecendo, ia também adquirindo forças para repelir o magnético do feitor.
A essas alturas porém as coisas já haviam tomado um rumo muito sério.
Ninguém se lembrava mais de Tomaz. Toda a concentração agora
era no feitor Eufrásio. Urgia faze-lo amigo antes que ele os atingisse. Isso
porque, Pai João explicara que se doutrinassem o feitor, ele deixaria de
atacar com seu magnético. A partir daí o feitor começou a receber constantes
visitas e foi melhorando tanto, que chegou a pedir perdão muitas vezes.
Eufrásio passou então a ser o confidente daquele povo!
Sim, Eufrásio fora um grande senhor até o dia que perdera a sua
fortuna e sua família devido ao jogo. Com isso fora obrigado a aceitar o
triste lugar de feitor naquela fazenda de tragédia.
Mais uma vez a prova de que o Homem se liberta por si mesmo...
Sim, enquanto Pai João e Pai Zé Pedro ensinavam a sua doutrina de
amor, o feitor ensinava, também, o que sabia dos mundos por onde andara.
Vovó Cambina da Bahia também o “rezava” todos os dias.
E a vida do arraial, sem ter perdido sua harmonia, só, agora
entretanto voltava ao normal das toadas e das alegres fogueiras.
Certo dia, estavam todos assentados quando ouviram um barulho
no mato, como se fosse um estouro de boiada arrastando tudo...
Eles então carregaram suas espingardas e se entrincheiraram...
Era uma vara de porcos selvagens que por ali passava, felizmente
por fora do arraial. Assim mesmos os Nagôs mataram mais de 20 porcos
fazendo fartura de carne.
Pai Juvêncio e Zefa eram os únicos que tinham coragem de ir até
um lugarejo por nome Abóbora.
Certa feita chegavam na entrada da cidadezinha, quando Pai
Juvêncio viu uma mulher com uma menina meio desacordada nos braços.
Ele chamou Zefa e cochilou no seu ouvido. Ela concordou com o que ele
disse e ambos benzeram a menina, isto é, tiraram o espírito que estava
com ela. A menina ficou boa e Tânia, sua mãe, deu a eles algumas frutas
que tinha, se desculpando por não ter mais nada.
Juvêncio e Zefa comeram as frutas, trataram dos assuntos que os
havia trazido a cidade e voltaram para casa. Ao chegarem, nem bem haviam
pisado na soleira da cabana quando sentiram uma violenta dor. Suas barrigas
começaram a doer, doer tanto a ponto de chamarem Vovó Cambina da
Bahia para socorre-los.
Seria veneno?
A disenteria piorava e os dois apresentavam os mesmos sintomas.
Pobrezinha dizia Pai João.- Resolveram tantas coisas para nós nessa
viagem!? Deve ser provocação, deve ser Deus testando seus corações.
Logo mais a noite todos estavam em torno da fogueira e pediam
noticias. Súbito, Jurema que estava ao lado de Pai Zé Pedro, levantou-se
bruscamente e apontando para os dois que estavam abaixadinhos unto a
fogueira gemendo de dor, disse:
- Eles comeram prenda ganha pela sua caridade!
- Como?! (disse Pai João). – Ah! Sim, Pena Branca não quer que
agente ganhe nada em troca do que faz! Sim. Vovó Agripino também já
disse:
- Gente só aprende com os espinho na carne, fincando!
- É Pai João, todos nós temos um espinho na carne!.
- Oh! Meus Deus! (gritaram todos de uma vez) – Sim! Estamos
conscientes!
Nessa altura, graças a Deus, Vovó Cambina já estava chegando
com a cuia de chá. Eles após tomarem o chá contaram o que havia acontecido
na entrada de Abóbora.
Todos então abraçaram os dois pela sua ação e cantaram em coro –
Juvêncio e Zefa comeram prenda da caridade que fizeram! – Sim, receberam
pagamento e o Pena Branca não gosta de presentes ou de “cobre”!.
.. Zefa e Juvêncio ainda tiveram uns três dias de dor na barriga.
Tudo foi alegre e passou.
Eufrásio que agora era o conselheiro do grupo também achou a
lição muito importante. Primeiro pelas frutas, uma vez que Pena Branca
não aceita pagamento pelo seu trabalho mediúnico e segundo pela denúncia
de Jurema, que em sua clarividência vira o que se passara.
O pobre casal fora lesado pelas sua mentes preguiçosas.
E tudo está espiritualmente pronto.
Pai Zé Pedro e Pai João se regozijavam: - O que será de nós , onde
iremos? Não seria melhor sairmos, em vez de esperar o Mundo aqui? Eu já
não suporto mais! Oh! Meu Deus!
- Zé Pedro (dizia Pai João) quando o celeiro está pronto o Mestre
aparece! – são palavras de Vô Agripino!
Pai Zé Pedro, Pai Francisco e muitos outros dos 70 membros daquele
grupo estavam inquietos. Menos Pai João e Eufrásio o feitor, que firmes
em Vovó Agripino, permaneciam calmos.
Certa manhã Jurema avisou o Pai Zé Pedro que chegaria muita
gente para se curar. Os nagôs se reuniram e se prepararam para recebe-lo.
Já fazia dois anos que ali estavam.
- Lá vem eles, lá vem eles!
Lá embaixo avistava-se uma enorme fila de gente chegando.
Só se ouvia gente correr para receber os chegantes.
Zefa e Juvêncio reconheceram entre eles a mulher cuja menina
haviam curado e gritaram: - Jurema, Pai João, Pai Zé Pedro!. São gente que
vem em busca da caridade! (e perguntaram baixinho a Pai João) – Não tem
perigo de nossa barriga doer?
- Não! (respondeu Pai João).
E o povo foi chegando e fazendo ambiente.
Que maravilha! Todos estavam felizes, a felicidade dos Missionários
de Deus!
Tudo foi lindo com suas curas desobsessivas e seu amor, a dedicação
de toda aquela gente.
Meus filhos, eu gostaria de contar mais desta história, porém
Manezinho, o 7º Raio de Yucatã não me deixa. Sabe por que? Porque ele é
também um personagem da Cachoeira do Jaguar.
E você também, meu filho, procure se encontrar nela.
Com carinho

A mãe em Cristo.
Vale do Amanhecer-DF, 08 de março de 1980.

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