sexta-feira, 29 de abril de 2011

O AMANHECER DAS PRINCESAS NA CACHOEIRA DO JAGUAR (4)





CAPITULO IV

Salve Deus!

Meu filho Jaguar!

O dever é obrigação moral da criatura para consigo mesmo em primeiro
lugar, em segundo para com os outros. O dever e a lei da vida. Meu filho, a
virtude é o mais alto grau onde o homem encontra sua liberdade espiritual. A
virtude é a forma que sobrevive e explica a natureza do homem, porque tudo
está contido em Deus! Sempre estamos a percorrer as ruínas de nossas vítimas,
das suas vidas, sem preocupação exata de nossa missão. Hoje meu filho,
estamos tentando acreditar no que nos dizem os nossos antepassados.
Sim meus filhos, todos já estavam no Congá da Cachoeira do jaguar.
Foi triste aquela noite. Jerônimo havia chegado aos gritos, trouxera a mãe
das gêmeas que estava muito mal. Emoções, choros, tristeza e também
risos. O fato é que não se sabe como dormiram. Tão logo o dia clareou,
todos á estavam tirando palmas, fazendo lindas choupanas. No prazo de
oito dias á existia um lindo povoado de palha e tudo na melhor sintonia
possível. Foi então o dia do Congá. Todos estavam realmente desejosos.
Sim, o menor dos seres vibrava na presença daquele lindo altar formado
de palmas. Pai Zé Pedro e Pai João estavam muito felizes aquela noite, pois
haviam se encontrado com Henrique de Enoque e com ele se identificaram.
Henrique era um dos Nagôs. Juntos entraram na choupana de Jurema que
estava ao lado de sua mãe moribunda. Jurema ao sentir os três, ergueu a
cabeça e disse como se estivesse dormindo:
- Salve Deus! Seja bem-vindo nesta Terra meu estimado
Procurador! É árdua esta missão que escolhestes de Nagô. Assim assumistes
a maior das missões. Oh! (gritou) como me orgulho de ti filho! Me orgulho
de ti, como em poucos tenho o mais puro exemplo...
Nisto abriu os olhos e meio decepcionada voltou para sua mãe e
todos correram para ela.
- Oh filha! Não sabes o bem que nos fez.
Ela começou a chorar dizendo - Sim , eu sei. Eu ouvi tudo que
disse, apenas não pude me impedir de dizer. (Zé Pedro olhou para João).
- Como? Segundo Vô Agripino ela passou por um processo de
incorporação consciente. – E quem tomou o seu corpo?
- Os anjos e santos que prometeram nos protege nesta jornada.
Jurema será a voz direta do Céu. (respondeu João).
Sim, graças a Deus! Então, comentaram tudo o que havia se
passado. Zé Pedro reconhecera Henrique o seu velho procurador romano.
Sim, Zé Pedro como imperador o havia mandado a Pompéia e agora o
reconhecera, porém não estivera tão seguro até que Jurema fizesse aquela
grande afirmação. Os dois voltaram a se encontrar e no mesmo primitivo
lugar. Pai João filosofando disse:
- Todos somos livres neste mundão de meu Deus! Até mesmo
para acreditar, desejar, escolher, fazer e obter; mas, todos somos também
constrangidos a penetrar nos resultados de nossas próprias obras. Não
existe direito sem obrigação e nem equilíbrio sem consciência.
- Neste caso a consciência de Jurema é equilíbrio?
- Graças a Deus, por isso me faz tanto bem, João.
- Sim João, e a mãe de Jurema irá morrer?
- Não Zé Pedro. A doença é apenas o conflito do seu externo,
falta de energia física. Não precisamos nos preocupar. – Aceito sua afirmação
João. Fico feliz e seguro de saber de seus sonhos com Vô Agripino. Seria
tão bom se eu também pudesse sonhar com ele, porém devemos agradecer
a Deus de termos você.
- Sim Zé Pedro, porém ele ralha muito comigo!
- Sim João, eu também tenho um Índio. Eu já lhe Disse, não?
- É verdade Zé Pedro, é verdade. E sabes mais Zé Pedro? Fui
informado que o Vô Agripino é Pai Espiritual deste Índio.
- João espera, vamos devagar...
Nisto um grito de alegria mudou a sintonia dos dois.
Era o escandaloso do Tomáz que havia visto um pequeno barco
trazendo a Sinhazinha Janaína.
- Vê (disse Zé Pedro) Jurema bem que disse ter visto uma linda
loura e um crioulo e também que traziam belas mantas para as crioulas.
- Sim, vamos Zé Pedro e cuidado! Você está fazendo muitas
observações, isto é muito perigoso. Deixe que as coisas decorram sem
muita precisão de sua cabeça.
Desceram todos e a chegante parecia que já estava sendo esperada.
Tudo calmo, desembarcou realmente com muitas manta e pequenos terços,
chamando Jurema foi também lhe entregando a sua bagagem. Vendo Pai
João e Pai Zé Pedro perguntou se poderia viver ali com eles.
- Como? (disse Pai João) veio morar conosco?
- Sim, (disse a Sinhazinha) – Meu Deus, quantas complicações!
(Pensou a Pai João)
- Meu Pai é dono de engenho e tem grandes negócios na Europa.
Minha mãe morreu e eu sonhei que nesta Cachoeira alguém me esperava.
Viemos eu e Chiquinho para nunca mais voltar. Libertei todos os negros
que estavam no tronco e sei que eles também virão. Chiquito vai descer
novamente, virar o barco e voltar a pé, depois de alardear o meu
afogamento. Todos pensarão que morri.
Neste ínterim todas as jovens já estavam juntas dando risadas. A
euforia era tão grande que não houve sessão no Congá. Tudo ia correndo
mais ou menos, todos se conhecendo melhor. Então uma grande harmonia
foi evoluindo aquela gente. Pai Zé Pedro cada dia se evoluía no aprendizado
de Pai João. Em vez de sessão no Congá eles gostavam mais das histórias
doutrinárias de Pai João. Naquela noite, estavam todos sentados diante de
uma linda fogueira atiçada por Pai Joaquim e Mãe Dita...
Em resumo, ali acontecia a doutrina secreta, mãe das religiões e
das filosofias, que se reveste de aparências diversas no correr das idades,
porém sua base permanecendo imutável em toda parte. Sim, nascida
simultaneamente na índia e no Egito, passando daí para o Ocidente com a
onda das imigrações. Assim é que por toda parte, através da sucessão dos
tempos e dos rastros dos povos, afirma-se a existência de um ensino secreto
que se encontra idêntico no fundo de todas as grandes concepções religiosas
ou filosóficas. Os sábios, pensadores, os profetas dos templos e dos paises
mais diversos, nela acham a inspiração, a energia que faz transformar e
empreender as grandes coisas que aliviam as almas e equilibram a sociedade.
Todos se preocupavam com a fogueira, enquanto Pai João cochilando
ouvia todas essas coisas, estas lições, estes ensinos. Mal sabia Pai João, ia
gravando tudo isso no fundo de sua alma, junto com a paz, uma serenidade
e uma força moral incomparável. Todos sorriam, sem se lembrar do feitor
que repousava inerte na ultima choupana. Como a união faz a força, se
obtém geralmente resultados satisfatório sobre os encarnados. Todos
estavam descontraídos e desprevenidos, alheios aos seus pensamentos
exceto Jurema, que não saia da cabeceira de sua mãe.
E no meio daquela noite surgiu um triste espetáculo: Jurema, com
um pedaço de madeira na , mão, gritava escandalizando todo mundo
como se fosse o próprio feitor!
- Negros desgraçados, preguiçosos! (E se atirando em cima de
todos e de olhos fechados espraguejava contra Zé Pedro).
- Pai Zé Pedro vendo que ela poderia cair na fogueira, foi segurala.
Qual nada! Jurema investiu contra ele e o agrediu. Pai João foi ao
encontro e os dois se machucaram Jurema estava se a razão. Pai João
levantou os braços e na força do chamado Deus africano, gemeu como um
leão dizendo:
- Oh! Obatalá, oh! Obatalá!, entrego neste instante mais esta
ovelha para o teu redi!!
Jurema soltou o porrete e saiu cambaleando num pranto doloroso.
Pai Zé Pedro enxugando o sangue do rosto, acariciando-a enquanto ela
enchia de perguntas.
- Não tens raiva de mim? Não te zangastes?
- Não filha, (disse ele por fim). Conheço o fenômeno e tu só me
fazes bem. Jurema levantando os grandes olhos rasos d’agua, emitiu a Zé
Pedro toda a sua ternura. Zé Pedro sentiu todo amor de sua vida. Os dois
percorreram o transcendente e como por ventura, Jurema viu o fomoso
procurador que cortejava e a quem tanto amava. Então ali permaneceram
sem que ninguém os reparasse. Todos estavam empolgados no fenômeno.
Pai João fez aquela emissão ou elevação com toda força dos seus
sentimentos. Sentindo as dores do fenômeno, voltou para o mesmo lugar,
voltando também a ouvir Vô Agripino.
- Salve Deus! Viu João? Fizestes tudo tão perfeito, porque tens
constantemente livre o teu sol interior. Te entregastes ao Cristianismo,
esquecendo-te de ti mesmo. Sim, o ensino é como pétalas de rosa que
caem em nossas mentes, enquanto vai orvalhando os três reinos de nossa
natureza.
- E o Centro Coronário que me ensinastes uma vez?
- Sim! Este guarda as perolas que levamos para a vida eterna. (e
disse mais) – Não te assustes com Zé Pedro. Não te esqueças que ele tem
apenas 40 anos aí na terra.
Pai João meio confuso, viu Zé Pedro ainda falava com Jurema.
Então voltou a fazer outras perguntas ao seu Vô Agripino e este entre
outros esclarecimentos disse:
- João, sabes quem tomou o aparelho de Jurema?
- Não meu Vô, quem?
- O feitor!
- O feitor? Como? Ele morreu?
- Não, o seu ódio é tão grande que ele se desprende do corpo e
faz o que fez.
- Meu Deus!
- Sim! E não poderás dizer nada, guarde tudo para ti mesmo,
porque esta gente não tem capacidade de assimilar tudo isto.
- Oh meu Obatalá! Tenho medo e Zé Pedro?
- Sim, nem Zé Pedro. Ele será feliz, porque saberá respeitar o seu
grande e imortal amor.
- E Japuacy?
- Japuacy? Veja João. (Pai João deu uma grande risada...)
Sim meu filho Jaguar, vou terminar a reforma da sala de cura com
Rafael e Fabrício, e não tenho como escrever mais, porém na próxima
semana darei a vocês mais uma parte.

Com carinho.
A mãe em Cristo.

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